Fama x Fama

15 nov

Fama, de Alan Parker (The Wall, Evita), é um dos filmes mais queridos de nossa geração. Lançado em 1980, foi o “piloto” de uma série de TV que ainda deve passar em canais como o TCM ou o Boomerang. O filme e a série seguem o dia-a-dia de um grupo de alunos da New York City High School for the Performing Arts, uma escola que forma atores, cantores e músicos, um cotidiano que eu conheço – afinal, trabalhei quatro anos como fotógrafo de uma companhia de dança.

Fama não é um grande filme – sofre com um roteiro arrastado – mas tem cenas memoráveis. O caótico almoço na lanchonete ao som de Hot Lunch, os alunos invadindo a rua e dançando sobre os carros ao som da música tema, Remember my name, a belíssima I sing the body electric na cena final.

Ok, ok, eu entendo que um filme de trinta anos atrás, com galãs e gatinhas hoje quase sexagenários, com figurinos precários e que não foi rodado em 3D e nem tem som Dolby Digital 7.1 teria pouco apelo junto a uma nova geração criada na base da edição rapid-fire e das cores ultrassaturadas dos clipes da Britney Spears e Avril Lavigne. Então não me surpreende que algum executivo da MGM tenha tido a grande idéia de refazer o filme – afinal, nessa época de High School Musicals a torto e a direito, como não poderia o remake de Fama ser um sucesso estrondoso de bilheteria?

Mas Kevin Tanchaoren não é Alan Parker. Desde a primeira tomada parece que o diretor ficou com medo de impor sua visão própria ao remake, e repete as técnicas usadas por Parker para dar um tom de documentário ao filme: câmera na mão, tomadas de pessoal ensaiando… Por alguns minutos tive a impressão que o remake seria uma espécie de homenagem ao original.

Mas Kevin Tanchaoren não é Alan Parker. Os personagens de 2009 não parecem ter nenhum sonho, nenhuma ambição, nenhum desejo. Onde está o sex appeal do Leroy? Onde estão o instinto de sobrevivência de Ralph Garci, a presença magnética da Coco Hernandez, Montgomery descobrindo e chegando a termos com sua homossexualidade? Os personagens de Parker bem ou mal capturaram o espírito de uma época  – e se os de Tanchaoren também representam uma geração, essa geração deve ser ingênua, assexuada e incapaz de sonhar.

Kevin Tanchaoren não é Alan Parker. Confrontado com um clássico, Tanchaoren tenta recriar algumas cenas – o almoço na cantina (cadê Hot Lunch?), Coco cantando Out here on my own ao piano, até mesmo a tentativa de suicídio de um dos bailarinos no metrô. O que poderia ser uma homenagem se apresenta como farsa e serve tão-somente para mostrar o abismo que separa os dois filmes e seus respectivos diretores. E quando eu achei, aliviado, que ao menos a música tema iria escapar ao liquidificador pop…

Me despeço com os trailers das duas versões e um pedido aos executivos de Hollywood: por favor, respeitem a nossa infância!

P.S.: as coreografias do remake são breguetérrimas.

P.P.S: a atriz que seria, supostamente, a melhor bailarina da escola é péssima. Dá até pena de assistir…

P.P.P.S.: no remake, Brad e Janet não aparecem e ninguém dança o Time Warp.

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2 Respostas to “Fama x Fama”

  1. Hali novembro 16, 2010 às 12:25 am #

    Chico, obrigada por avisar que cortaram o time warp do remake, realmente imperdoável e assim não assisto a nova versão.
    O original é sensacional!!

  2. simonecdias novembro 19, 2010 às 1:18 am #

    A prova que o remake é uma bomba é que eu mesma não aguentei a vergonha alheia e me retirei na cena final. Chose de loque.

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