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O filme de 20 trilhões de dólares

16 abr

Em 2008, às vésperas da eleição presidencial que consagraria o então-futuro-ganhador-do-prêmio-Nobel-da-paz Barack Obama, uma série de falências de bancos de investimentos e de financiamento habitacional (a famosa hipoteca) colocou o mundo em parafuso. De um dia para o outro começou-se a falar de bilhões e trilhões de dólares para resgate (os bailouts). O que teria acontecido à economia estadunidense que parecia inexpugnável após anos de crescimento?

Mas o que, à primeira vista, parecia um evento catastrófico inesperado foi cuidadosamente construído ao longo de trinta anos, mediante um processo de desregulamentação e consolidação de gigantescos conglomerados financeiros. Esse longo processo de construção da crise financeira é o tema de Trabalho Interno (Inside Job, 2010), dirigido por Charles Ferguson.

O poster

O filme apresenta um ótimo painel de entrevistas com os principais agentes – desde ex-executivos e advogados de empresas como Morgan Stanley, Lehman Brothers até técnicos do governo estadunidense e professores e pesquisadores em ciência econômica – entremeadas com depoimentos nas comissões de investigação, reportagens, e ótimas animações para explicar os elementos técnicos da discussão: CDOs, CDSs, securitização, alavancagem financeira… Ferguson expõe a promiscuidade entre o governo, o mercado especulativo e até mesmo a academia em um contexto de crescente desregulamentação do mercado de capitais.

Mas é, sobretudo, um filme sobre a aparência. Sobre como um grupo muito pequeno de pessoas conseguiu extrair enormes lucros em um sistema baseado nas percepções de valor, de solidez, de confiança de papéis e de instituições (os chamados ratings de risco). E sobre como a fragilidade dessas percepções foi tragicamente desnudada, revelando um sistema em última instância irresponsável pelos efeitos de suas decisões.

(E a próxima vez que meu gerente falar pra eu tirar meu dinheiro da poupança e colocar num fundo de investimentos, bem… banana pra ele.)

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P.S. Ainda sobre política e economia, recomendo o impressionante e um tanto obscuro Memorias del Saqueo (2003), documentário de Fernando Solanas sobre a destruição da economia argentina nas últimas décadas do século XX. O mesmo processo que vimos no Brasil dos 1990s em nome de uma modernização neoliberal. Na íntegra, aí embaixo:

Nostalgia da Luz

22 out

Pois estamos às vésperas das eleições e do início da Mostra de Cinema de Sampa, então me deparei com uma dúvida cruel sobre qual dos dois temas abordaria com alguma citação cinematográfica no blog. Sem me decidir, resolvi escrever algo que os juntasse de uma vez, assim falarei sobre o filme do chileno Patrício Guzman, o belíssimo Nostalgia de La Luz.

Antes com as devidas introduções, Guzmán foi o corajoso cineasta que fez um documentário bacana demais chamado “La Batalla de Chile”, que conta elegantemente sobre o 11 de setembro Chileno, quando ocorreu a trajetória do famigerado Pinochet para tomar o poder das mãos de Allende.

“Um país, uma região, uma cidade, que não tem cinema documental, é como uma família sem álbum de fotografias”. Patrício Guzman

Devo dizer que foi com a mesma emoção que me prendi aos relatos deste novo Nostalgia da Luz. O filme busca relatar em documentário como o deserto do Atacama é o cenário perfeito para que existam diversos centros científicos que realizem a observação do universo através de telescópios, pois o céu límpido e transparente da região permite que se ambicione desvendar ali os mistérios sobre o cosmos, ou desenvolver uma comunicação com seres evoluídos de galáxias muito distantes. Em contrapartida, paradoxalmente, também é o local ideal para que a ditadura de Pinochet tenha enterrado em valas os corpos de desaparecidos políticos, pois o deserto guarda em si os mistérios e o acúmulo de poeira das ruínas de minas.

A linguagem poética nas analogias e referências estéticas do deserto é de uma inteligência invejável. Uma cena extraordinária acontece em uma tomada que parece ser da Lua, mas que em panorâmica percebemos ser de um crânio humano. Com muitas outras referências simples e profundas, nada demagogas, o filme vai tecendo a trajetória do homem que busca se esconder de si mesmo e de sua história ao se focar em algo muito distante, a anos-luz até, para assim deixar de olhar para suas próprias feridas. O Atacama revelado pelos olhos do cineasta se torna a memória viva de um país que não quer enxergar o seu próprio passado até recente.

O que isso tem a ver com nossas urnas vindouras, afinal? Enfim, de repente achei interessante constatar que brasileiro e chileno sejam farinha do mesmo saco, já que nossas escolhas políticas também só se fundamentam em um esquecimento vital do nosso passado político…

Quanto à mostra, o filme estará em exibição em diversas salas, assim o considere super recomendado caso esteja pela cidade de São Paulo na próxima semana.

Aonde assistir na mostra?

• Livraria Cultura 1 Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073, Cerqueira César / CEP: 01411-000. / TEL.: 3285-3696

25 Out, 14:00

• Belas Artes – Sala 2 Rua da Consolação, 2423, Consolação / CEP: 01302-001. / TEL.: 3258-4092

31 Out, 16:10

• Unibanco Arteplex 2 Shopping Frei Caneca Rua Frei Caneca, 569 – 3ºpiso, Consolação CEP: 01307-001

23 Out, 17:10

• Cinema SABESP Rua Fradique Coutinho, 361, Pinheiros – CEP: 05416-101. / TEL.: 5096-0585

24 Out, 17:40