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Sobre celulóide e bicicletas

14 dez

Elas já estavam lá quando os irmãos Irmãos Lumière rodaram seu primeiro filme com o recém inventado cinematógrafo. Em 1895,  La Sortie de l’Usine Lumière à Lyon, segmento que abriu a primeira sessão de cinema, no Grand Café de Paris, em 28 de dezembro do mesmo ano, capturou algumas bicicletas entre as dezenas de operários que saíam da fábrica.

Desde então, bicicletas foram as coadjuvantes (ou talvez as protagonistas) de momentos inesquecíveis do cinema em filmes como E.T., Ladrões de Bicicleta, Butch Cassidy… Para celebrar o meu meio de transporte favorito separei três momentos cineciclísticos memoráveis:

• As Bicicletas de Belleville (2003)

Uma animação que já nasceu clássica

Sylvain Chomet explora a fascinação dos franceses pelo Tour de France em uma história tocante sobre o amor de uma avó pelo seu neto. Um desfile de personagens bizarros numa outra Nova York (a Belleville do título, com direito a estátua da liberdade gordíssima, segurando um sorvete numa mão e um hamburguer na outra), onde Madame Souza vai à procura de seu neto, sequestrado enquanto disputava uma Étape do Tour. Chomet costura estilos musicais e de animação (destaque para a sequência inicial em estilo old school, à la anos 1930). Chomet torna a música o principal elemento de amarração dos vários momentos de um filme desprovido de diálogos.

Animação tradicional, com visual que remete ao estilo europeu de quadrinhos – de Hergé, Uderzo… -, Belleville é um sopro de ar fresco para quem está cansado de animações com meninas de olhos gigantes e bichinhos fofinhos em 3D.

• O Escocês Voador (2006)

Biopic surpreendente

Tenho que confessar que, se não odeio biopics, tenho ao menos um enorme preconceito com o gênero. Talvez seja um efeito da falta de criatividade dos roteiristas hollywoodianos e essa insuportável onda de remakes, adaptações e filmes biográficos…

Dito isso, O Escocês Voador foi um dos filmes que mais me surpreendeu em 2010. Uma humilde coprodução Alemanha-Reino Unido que conta a história real de Graeme Obree (Jonny Lee Miller, de Hackers, e que faz o vilão Jordan “take it” Chase na temporada 5 de Dexter), um ciclista desempregado que decide quebrar o recorde mundial da hora – uma prova quase suicida, em que se tenta pedalar a maior distância possível em velódromo dentro de sessenta minutos.

Além da atuação poderosa de Miller, o filme se destaca pela ótima trilha sonora (assinada por Martin Phipps), pela fotografia e pela edição de imagem e de som, que transmitem a sensação de isolamento e concentração ao se dar voltas e voltas em um velódromo. Sempre que me falta ânimo para pedalar no frio e na chuva de Curitiba me lembro das cenas de Obree pedalando no inverno escocês…

• Quicksilver – O prazer de ganhar (1986)

Com um punhado de clichês dos anos 1980 na bolsa

Kevin Bacon é um corretor de ações que perde tudo na bolsa e encontra sua nova vocação como bike messenger – o equivalente gringo dos nossos motoboys. Entre uma entrega e outra, ele encontra tempo para se envolver com uma garota (Jami Gertz), disputa corridas com Larry Fishburne – que depois se tornaria Laurence – e precisa enfrentar um traficantezinho de meia tigela que deve ser um dos vilões mais patéticos da história do cinema. Um roteiro sem pé nem cabeça no melhor estilo 1980s.

Mas ninguém assiste Quicksilver esperando ver uma obra revolucionária. Ele é mais um daqueles filmes que funciona porque estava no lugar certo, na hora certa – um filme que capturou o Zeitgeist, como nós, arquitetos, gostamos de falar: nos figurinos, nas músicas, no imaginário dos anos 1980. Bicicletas de roda fixa voltaram à moda trazendo consigo toda uma estética inspirada nos bike messengers e nos anos dourados das corridas de estrada. E, na esteira desse renascimento, renovou-se o interesse por Quicksilver. Um filme que serve de aperitivo enquanto esperamos Premium Rush.

Pra terminar, ao invés do trailer, deixo minha cena favorita: